O que muda de verdade
A reforma tributária tem cinco efeitos estruturais que toda empresa vai sentir — independente do setor, do porte ou do regime tributário:
- O custo real de uma compra muda com o IBS e a CBS. A não-cumulatividade ampla dos novos tributos faz com que o custo efetivo de um insumo seja preço menos crédito tributário. Dois fornecedores com o mesmo preço podem custar valores diferentes. Quem compra no improviso vai pagar mais caro sem perceber — e perder margem sem saber onde.
- O imposto vai aparecer no preço — por fora. Diferente do modelo atual, o IBS e a CBS são cobrados "por fora" da base. O imposto fica destacado na nota, a alíquota fica visível, e a margem real do negócio aparece com mais clareza. Inclusive a que está sendo destruída pelos descontos que você está dando.
- O split payment vai mudar o caixa de quem se financiava com o intervalo do imposto. Com o split payment, o valor do tributo é retido automaticamente no momento da liquidação financeira — antes de chegar ao caixa da empresa. Quem usava esse intervalo como capital de giro vai sentir. Se o caixa já é apertado, vai apertar mais.
- A tributação no destino elimina benefícios ligados à origem. Incentivos fiscais atrelados a onde a empresa opera ou produz deixam de existir com a migração para IBS e CBS. O que era vantagem regional passa a não fazer mais diferença.
- O período de transição cria incomparabilidade entre meses. A transição prevista para 2026–2033 vai fazer com que diferentes períodos convivam sob regras distintas. Quem não tem controles gerenciais vai tomar decisão olhando para números que não são comparáveis entre si — sem saber disso.
Esses cinco mecanismos não criam problemas novos. Eles tornam mais difícil esconder os que já existem.
E o Simples Nacional?
As empresas do Simples Nacional têm tratamento diferenciado na reforma — com opção de recolhimento do IBS e da CBS dentro do próprio Simples. Mas a lógica estrutural é a mesma: quem não tem controle de margem, custo e caixa vai continuar sem clareza, independentemente do regime. A reforma não simplifica o que a empresa ainda não enxerga.
O que não muda
Se a empresa não tem clareza de qual é sua margem real, produto por produto, a reforma não vai criar essa clareza. Se o time não tem meta e responsabilidade definidas, a mudança de regime não vai colocar. Se a liderança toma decisão no improviso, o novo sistema de crédito não vai ajudar.
A reforma muda o ambiente. A estrutura da empresa é responsabilidade de quem a dirige.
A armadilha que vem pela frente
Tem um padrão que eu vejo em empresas que estão travadas: sempre há um fator externo para explicar o resultado.
Antes era a pandemia. Depois foi a taxa de juros, o dólar, a inadimplência. Agora vai ser a reforma tributária — o IBS, a CBS, o split payment, a alíquota padrão que ainda não é definitiva.
A reforma vai mudar os números. Mas o problema que está produzindo o resultado que você tem é interno. Está na estrutura da empresa.
Empresas que chegarem na reforma com estrutura vão conseguir ler o que está acontecendo e agir. Empresas que chegarem no improviso vão continuar reagindo — só que com variáveis novas que não entendem.
O que o SDE identifica na reforma
O Sistema de Direção Empresarial lê a reforma tributária pelo impacto que ela tem em cada área da empresa. Quatro delas vão ser diretamente pressionadas pela transição para IBS, CBS e split payment:
Vendas
Com o IBS e a CBS "por fora", a alíquota e a margem ficam visíveis na nota. Quem vinha dando descontos sem markup protegido vai descobrir, com mais clareza, o quanto essa prática estava destruindo resultado.
CPE — Compras, Produção e Entrega
O crédito tributário gerado por cada compra muda o custo efetivo do insumo. Dois fornecedores com o mesmo preço podem ter custos reais diferentes. Quem compra no improviso vai continuar pagando mais caro — e vai perceber isso tarde demais.
Estrutura Financeira
O split payment retira do caixa o valor do imposto antes de ele chegar à empresa. Quem não conhece seu ponto de equilíbrio real vai confundir faturamento com saúde financeira — só que agora com menos dinheiro em conta para encobrir a diferença.
Controles Gerenciais
No período de transição (2026–2033), meses diferentes operam sob regras diferentes. Comparar resultados de períodos distintos vai exigir controles gerenciais que a maioria das empresas ainda não tem.
O momento de construir estrutura é antes da pressão
A transição para o IVA dual vai até 2033. Mas os primeiros efeitos práticos do split payment, do crédito tributário ampliado e do imposto "por fora" chegam antes — e chegam de forma diferente para cada empresa, dependendo do que já existe (ou não existe) na estrutura interna.
Antes de a reforma tributária mudar os números, três perguntas valem a pena:
O que sua empresa precisa responder antes de 2026
- Você sabe qual é sua margem real, produto por produto — não o faturamento, a margem? Porque com o IBS e a CBS por fora, ela vai aparecer de qualquer jeito.
- Você sabe onde seu caixa está sendo pressionado hoje, e por qual causa estrutural? Porque o split payment vai reduzir o intervalo que muitas empresas usam sem perceber.
- Você tem controles gerenciais que vão continuar funcionando quando ICMS, ISS, PIS e Cofins derem lugar ao IBS e à CBS? Porque comparar resultados entre períodos vai exigir mais estrutura, não menos.
Se a resposta for não para qualquer uma delas, o problema não é a reforma tributária. É a estrutura da empresa.
E isso é algo que dá para ver agora, antes de qualquer mudança entrar em vigor.